Livros, Resenhas

Garota Exemplar, Gillian Flynn (1/2)

Postado por Duds

garota

Garota Exemplar
Gone Girl (original)
Autora: Gillian Flynn
Editora: Intrínseca
Ano: 2013
Edição: 1ª
Páginas: 448
cinco

Lembra quando eu falei que Garota Exemplar tinha sido um dos meus livros favoritos ano passado e que ele seria a primeira resenha literária aqui? Então. Promessa é dívida –mesmo que seja depois de um mês que o ano já começou (hehe). Tenho tentado pensar em posts pra fazer que não envolvam tanta música pra compensar a caralhada o tanto de post de música que já apareceu por aqui.

Ano passado foi um ano muito ruim pra mim em matéria de livros, isso porque eu li muitos livros pro TCC e quase nenhum de ficção. Eu escolhi muito bem os livros que iam ocupar as brechas entre um livro teórico e outro, e Garota não foi um deles. Só no final do ano, quando eu já não tinha mais nada pra ler e precisava ir até uma gráfica e ficar um tempão lá esperando, eu comprei esse na Martins Fontes dentro da faculdade (sim) e comecei.

Esse é o livro mais difícil em matéria de personagens que eu já li, isso porque o livro é bem construído assim, e, apesar de ter claros narradores (já falo sobre isso), às vezes parecia que tínhamos a visão que a polícia e o público tinha do caso.

Há uma diferença entre realmente amar alguém e amar a ideia dessa pessoa.

Mas que caso? Bom, se você não leu o livro e nem viu o filme, não sabe do que o livro se trata e eu vou explicar.

Essencialmente é muito simples: Nick e Amy, casados há 5 anos, têm problemas no casamento como todo casal. Amy, inspiração para a série de livros de sucesso Amy Exemplar escrita por seus pais psicólogos infantis, sempre prepara, para cada aniversário, uma “caça ao tesouro” para que Nick vá passando por lugares importantes em seu relacionamento até chegar ao seu presente. No aniversário de 5 anos do casal, o segundo ano deles no Michigan, cidade dos pais de Nick e Margo (sua irmã gêmea), Amy desaparece misteriosamente, com sinais de sequestro e de que talvez nem esteja viva, e o culpado é sempre o marido. O livro nos conta a história a partir do dia do desaparecimento como uma análise do relacionamento dos dois.

Narração

O livro é claramente dividido nas narrações e nas partes. Um “capítulo” é narrado pelo Nick Dunne, o marido, e um “capítulo” é narrado pela Amy Elliott Dunne. Nick sempre narra as coisas no momento em que elas acontecem, mas na primeira parte, tudo que sabemos de Amy são anotações em diário, no passado. Só a partir da segunda parte que ela também começa a narrar as coisas conforme elas acontecem. Pra nos ajudar, temos a marcação do tempo no início de cada “capítulo”, por exemplo: 5 dias sumida, 10 dias sumida, ou No dia do.

Parte um: rapaz perde garota

A narração de Amy da primeira parte é feita por anotações de diário que nos guiam por momentos antes de ela conhecer o Nick, depois quando ela o conhece, e depois quando eles se casam, e ela sempre lida com todas as coisas daquela maneira “garota legal” que não se importa quando o marido sai com os amigos e não avisa, que não o prende em casa e que ri dos outros maridos “macacos adestrados” (usando essa expressão). O casamento começa perfeito e depois a narração de Amy faz com que a gente se ponha no lugar dela. Como uma mulher tão inteligente e independente se prendeu a um homem desse jeito?

Vocês têm o mesmo ritmo. Clique. Vocês simplesmente se conhecem. De repente, você se flagra lendo na cama e panquecas no domingo e rindo de nada e a boca dele na sua. E é tão além do legal que você sabe que nunca poderá voltar para o legal. Rápido assim. Você pensa: Ah, eis aqui o resto da minha vida. Ele finalmente chegou.

Nick Dunne é o “homem desse jeito”, o sujeito que não sabe expressar sentimentos, desgastado por um casamento difícil, uma demissão em massa e a morte da mãe, que parece indiferente às câmeras e ao público quanto ao desaparecimento de sua esposa. E isso é usado contra ele. Porque é muito difícil gostar de Nick, e a primeira parte é construída pra isso.

Gillian nos apresenta os personagens como se eles fossem pessoas reais apresentadas a você por um amigo seu: primeiro você a vê pelos olhos do seu amigo, depois você a vê pelos seus olhos e depois você a vê de verdade. É brilhante.

Durante todo o sumiço, investigação e buscas por Amy, nós nos colocamos do lado dela. Enquanto Nick só mente para a polícia (primeiro mentiras pequeninas que pareciam proteger a Amy, depois mentiras maiores), a narração de Amy revela um casamento com um marido abusivo que torrava todo seu dinheiro em coisas inúteis para preencher o vazio de uma vida sem emprego. É depois de Nick nos contar que traía Amy com uma aluna que as coisas ficam realmente difíceis pra ele, no nosso ponto de vista, ainda mais quando Amy conta o que sentiu ao descobrir: como Nick pode trair uma mulher tão incrível como Amy? E então mais porrada: ele batia nela. Ela estava grávida. Ela comprou uma arma porque tinha medo dele. Ela estava se transformando numa pessoa que ela não queria ser, por causa dele.

Nick Dunne tirou meu orgulho e minha dignidade e minha esperança e meu dinheiro. Ele tirou e tirou de mim até que eu deixasse de existir. Isso é assassinato.

Mas aí é que tá a beleza do livro.

Você começa a ler uma parte e outra, e acha que aquilo foi tudo muito planejado, muito frio, muito calculista. Vê que ainda tem muito livro ainda pra acontecer, e pensa “não pode ser”. Não é possível que o Nick seja tão imbecil assim. Não é possível que ele não sabia que sua esposa estava grávida. Não é possível que ele não se lembre de todas as coisas que os dois fizeram juntos. Ou será que a Amy tá exigindo demais da memória dele? Não se lembrar dos mínimos detalhes quer dizer que ele não a ame?

Mas havia uma razão melhor: Amy estava crescendo em minha mente. Ela estava desaparecida, e no entanto estava mais presente do que qualquer outra pessoa. Eu me apaixonara por Amy porque eu era um Nick aperfeiçoado com ela. Amá-la me tornava sobre-humano, fazia com que eu me sentisse vivo.

O tempo todo você se questiona. E entre coisas que acontecem com Amy e ela nos conta em seu diário e todas as mentiras que vão sendo reveladas sobre Nick ao longo da primeira parte, você ainda não sabe que lado seguir. Ele matou ela. Ele não matou ela. Que diabos aconteceu?

Parte dois: rapaz encontra garota

O plot twist que encerra a primeira parte é inesperado, de certa forma, e apesar de colocar em dúvida todas as coisas que Amy conta em seu diário, também contribui para que a gente ache que Nick é o assassino e tudo aconteceu em alguma espécie de lapso que ele teve de sua memória. Pode acontecer, não pode?

Então o enredo nos conduz à verdade, e descobrimos que lemos 250 páginas de mentiras deslavadas até agora –tanto por parte de Nick e, supresa, por parte de Amy também. O diário, escrito ao longo de um ano, trás a visão dela sobre coisas que aconteceram mas que agora não têm mais o olhar da Amy Exemplar, e sim o olhar da Amy Real, que não é a garota legal que fingiu ser para casar com o Nick. “Odiei Nick por ficar surpreso quando me tornei eu.”

É nessa parte do livro que as coisas realmente acontecem, então ela é bem mais dinâmica. Com a verdade sobre Amy revelada, acompanhamos Nick descobrir o segredo e tentar se preparar, com seu advogado Tanner Bolt e sua irmã gêmea, uma defesa apropriada que consiga dizer ao mundo a verdade terrível: sua esposa não é quem ela diz que é. Praticamente toda a ação de verdade acontece aqui, enquanto na primeira parte havia uma investigação, levantamento de dados por parte da polícia e equipe de busca e Nick indo até os lugares propostos pelas pistas da caça ao tesouro daquele ano.

Era de se esperar que, com toda a ação acontecendo aqui, o livro se tornasse mais fraco, mas ao passo que Amy vai nos contando seu plano e toda a verdade, tudo vira um grande tapa atrás do outro e uma corrida contra o tempo ao percebermos que Amy está voltando e Nick está quase conseguindo provar que está certo então vem aquele sentimento de aflição total quando você não sabe quem vai chegar primeiro.

Parte três: rapaz consegue garota de volta (ou vice-versa)

Amy chega primeiro.

É na terceira parte que o livro se explica e divide opiniões. A história merece uma explicação, merece um ponto final aceitável, e quem melhor para nos dar isso que Nick e Amy, juntos finalmente? Todas as cartas jogadas na mesa finalmente, tudo que não foi dito em cinco anos de casamento, tudo que um pensa do outro e todas as coisas descobertas nesses quarenta dias em que ela ficou sumida.

Essa é a parte mais intensa do livro, principalmente porque tudo que foi pensado agora é dito. Amy se abre com Nick, e vice-versa. Os dois conversam sobre o casamento no qual eles se encontram. Amy se revela um ser doentio, manipulador, capaz de tudo mas de alguma forma, ainda romântica até certo ponto. Ela o ama.

Porque ninguém pode estar tão apaixonado quanto estávamos e isso não invadir sua medula óssea. Nosso tipo de amor pode apresentar remissão, mas está sempre esperando para retornar. Como o câncer mais doce do mundo.

O tempo todo você fica do lado de Amy por ela ser uma mulher inteligente, disciplinada, confiante e cheia de poder dentro dela, ou do lado de Nick (meu caso) por ele ser um ser humano totalmente imperfeito mas que também não merecia ter sido acusado de assassinato e no meio de todo aquele “talvez eles sejam tão estragados –ela maluca e ele traidor– que são perfeitos um para o outro” que pode eventualmente passar pela sua cabeça, o livro nos leva para um caminho onde ninguém é 100% culpado de tudo aquilo ter acontecido.

Chegar à conclusão de que a culpa do casamento não ter dado certo de uma maneira tão doentia é dos dois é um tanto quanto perturbador, ainda mais se expandirmos para uma analogia com todos os outros casamentos do mundo. Você conhece a pessoa que está deitada do seu lado? Você se preocupa em conversar com ela, em se abrir? Você é honesta com a pessoa com quem você divide uma vida? Que tipos de segredos você esconde? Eles são perigosos ou são coisas que você tem vergonha de admitir?

“Somos um longo clímax assustador”, Amy diz. Duas pessoas que se amavam e que acabam vivendo num eterno climão de medo, de repulsa e de necessidade de estar no controle, de ter a última palavra, de estar sempre certo. De manter o desafio. E de continuar com alguém não apesar de seus caprichos e seus defeitos, mas porque ela controla uma prioridade que está fora do seu controle. Uma obrigação, um item de um pacote que você não faz questão mas tem que receber em casa porque com ele vem todo o resto: um filho, uma família, um status de namorando.

O amor deveria exigir que os dois parceiros dessem o melhor de si o tempo todo. Amor incondicional é um amor indisciplinado, e, como todos vimos, amor indisciplinado é desastroso. (…) Acho que fiz por merecer.

Gillian usa da narrativa de uma história extrema para questionar aspectos dos relacionamentos, seja ele amoroso ou de amizade, e nos bota pra pensar: na vida somos Amy Exemplar ou “o rapaz de ‘Conheci um rapaz'”?

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16 Comments

  1. Ana Claudia

    4 de fevereiro de 2015 at 07:18

    AAAAAAA! Esse é um dos meus filmes preferidos da vida! Eu sempre começo a ler o livro e paro em alguma parte, mas agora que vi o filme eu to super empolgada para ler! É uma história surpreendente, e empolgante! Tipo, não dá pra prever! Eu amei!

    1. dudssaldanha

      5 de fevereiro de 2015 at 15:27

      é realmente MUITO bom, eu mega recomendo! é exatamente assim como você falou, imprevisível e empolgante!

  2. Livs

    4 de fevereiro de 2015 at 11:31

    Adorei a forma como você construiu sua resenha, Duda! Eu só assisti ao filme, ainda não li o livro, mas é uma das minhas metas pra 2015.
    Adoro essa transição de um narrador pra outro, acho que vou curtir bastante!

    1. dudssaldanha

      5 de fevereiro de 2015 at 15:28

      nossa, se você gosta de transição então vai realmente amar esse livro HAHAHAHA o melhor é que como eu falei ali em cima, ele dá uma sensação de corrida pra ver quem chega primeiro. é realmente incrível!
      obrigada pelo elogio ao formato da resenha, sua linda <3 espero ir tão bem na resenha do filme hahahha

  3. clayciele

    4 de fevereiro de 2015 at 12:08

    Quando li o livro fiquei com um pouco de raiva do final e quis matar a personagem hahahaha ai quando assisti a adaptação do livro.. consegui enxergar melhor a mente dela =D
    http://www.saidaminhalente.com

    1. dudssaldanha

      5 de fevereiro de 2015 at 15:29

      eu também! mas depois que eu li o final do livro pela mente dela mesmo, me deu ainda mais raiva, acredita? HAHAHAHAHAHA

  4. Chell

    4 de fevereiro de 2015 at 13:12

    Por tudo que você escreveu eu vi exatamente o filme. Caramba, é igualzinho =O

    1. dudssaldanha

      5 de fevereiro de 2015 at 15:29

      eu só vou conseguir fazer a comparação melhor depois que escrever sobre o filme HSIOAHSOIA eu senti várias diferenças, nada que prejudicasse o filme, claro, já que eu gostei tanto dele quanto do livro!

  5. May

    5 de fevereiro de 2015 at 08:48

    Todos falam tanto desse livro – e do filme – que preciso ler. Ainda não vi o filme, porque se vejo não quero mais ler o livro, e eu quero ler! HAHAHA ~sou dessas~ eu não sabia bem do que se tratava o livro, mas agora parece bem mais interessante!

    Beijinhos,
    May :*

    1. dudssaldanha

      5 de fevereiro de 2015 at 15:30

      espero que os spoilers nessa resenha tenham sido leves pra você HAHAHAHA eu não revelei nem metade do que tem na trama, então acho que você vai aproveitar bastante <3
      semana que vem sai a resenha do filme!

  6. wanilag

    5 de fevereiro de 2015 at 11:49

    Pela primeira vez tive vontade (e muita) de ler o livro. Chego a dizer que só pela sua resenha me identifiquei com um dos personagens e mesmo sem ler já tenho a impressão que vai significar muito pra mim. Quero comprar logo!

    1. dudssaldanha

      5 de fevereiro de 2015 at 15:30

      COMPRA COMPRA. é tão maravilhoso <3 juro, ce não vai se arrepender!

  7. Jessika Lima

    24 de maio de 2015 at 17:33

    Acredito que nunca li uma resenha tão completa quanto essa. UAU!
    Eu assisti apenas o filme, mas o livro está na minha lista de próximas compras. Estou louca para ler, pois tenho certeza que ele me dará mais detalhes e sentimentos mais intensos do que o filme me deu.
    Amei tua resenha!

  8. BA MORETTI

    24 de maio de 2015 at 17:44

    obrigada por essa resenha maravilhosa me salvando de ir dormir perturbada com o filme ♥

  9. BEDA #5: As melhores adaptações cinematográficasPode chamar de Duds! – Nerdices, meninices e balas de caramelo.

    5 de agosto de 2015 at 21:32

    […] O primeiro da lista tinha que ser o meu favorito do ano passado, Garota Exemplar. Dirigido pelo David Fincher (<3) e baseado no romance homônimo da Gillian Flynn (que assina o roteiro), o filme conta a história de quando, no seu 5º aniversário de casamento, Amy Dunne desaparece e o mundo inteiro passa a acreditar que o culpado é Nick Dunne, seu negligente e indiferente marido. O filme consegue pegar todas as reviravoltas do livro, e tudo é perfeito, desde a fotografia ao casting. É uma das melhores adaptações que eu já vi e tem resenha do livro aqui no blog. […]

  10. BEDA #5: As melhores adaptações cinematográficas – Pode Chamar de Duds

    19 de junho de 2016 at 17:37

    […] O primeiro da lista tinha que ser o meu favorito do ano passado, Garota Exemplar. Dirigido pelo David Fincher (<3) e baseado no romance homônimo da Gillian Flynn (que assina o roteiro), o filme conta a história de quando, no seu 5º aniversário de casamento, Amy Dunne desaparece e o mundo inteiro passa a acreditar que o culpado é Nick Dunne, seu negligente e indiferente marido. O filme consegue pegar todas as reviravoltas do livro, e tudo é perfeito, desde a fotografia ao casting. É uma das melhores adaptações que eu já vi e tem resenha do livro aqui no blog. […]

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