Livros, Resenhas

Tenha fé em Mark Watney: Perdido em Marte, Andy Weir

Postado por Duds

AVISO: como todas as minhas resenhas, essa é classificada com pontuação 1 da escala-spoiler. Isso quer dizer que eu tentei muito não entregar nada da história mas pode ter escapado alguma coisa.

perdidoemmarte

Perdido em Marte
The Martian (original)
Autor: Andy Weir
Editora: Arqueiro
Ano: 2014
Páginas: 335
Nota: 5/5 pares de peitos (.Y.)

Minha primeira experiência com livros de ficção-científica que tem como cenário alguma coisa relacionada ao espaço e suas tecnicalidades foi com o livro Ponto de Impacto, do Dan Brown, e ele nem é tão ~espaço~ assim, convenhamos. Isso quer dizer que eu comecei a ler Perdido em Marte com a mentalidade de que seria meu primeiro grande livro sobre o assunto.

Esqueça todos os livros desse gênero que você já leu em toda a sua vida. De verdade. Eu já comecei a leitura me desapontando: eu esperava um livro com mais de 335 páginas.

Sendo sincera, depois que eu terminei de ler eu pensei “acho que meu coração não aguentaria ler mais páginas.

Um breve resumo

“Foi uma sequência ridícula de acontecimentos que quase me fez morrer, e uma sequência ainda mais ridícula que me fez sobreviver.”

O livro é um diário de bordo do astronauta Mark Watney que é tido como morto depois de um acidente envolvendo uma antena de comunicação e uma tempestade de areia classificada como severa e é deixado em Marte, muito vivo, obrigada.

Sim. É agoniante assim.

Espaço 1: Mark Watney

É muito difícil explicar porque esse livro é tão maravilhoso sem usar como justificativa apenas o fato de que ele é narrado em primeira pessoa uma grande parte (eu chego lá), e isso é MUITO importante. Importante para que você se identifique com o personagem, importante para que você se importe com ele, e, especialmente, importante para que você entenda o que está acontecendo.

Acontece que esse é um livro muito técnico, já que desde a primeira página Watney busca jeitos de racionar tudo que tem e fazer cálculos e milhões de fórmulas químicas para tentar ver quanto tempo ele consegue sobreviver. Então, é muito mais fácil quando o personagem transforma nomes como “quilowatts/hora por sol” para “piratas-ninja” na hora de explicar alguma coisa. Ele descreve fórmulas e passo-a-passos inteiros em páginas e páginas e você consegue entender absolutamente tudo que está acontecendo.

“Comecei o dia com um pouco de chá de nada. Chá de nada é fácil de fazer. Primeiro, pegue água quente, depois, não acrescente nada. Experimentei chá de casca de batata algumas semanas atrás. Quanto menos falar disso, melhor.”

Quando você se dá conta, já se pega pensando se aquilo tem a mais remota possibilidade de dar certo antes mesmo dele digitar a próxima entrada no diário dizendo se tudo correu bem ou se ele quebrou alguma coisa.

Todas as entradas de Watney contém doses iguais de experimentos, merdas e comic reliefs. É uma dose tão perfeita que eu fico até com medo de outro livro que o autor possa escrever.

É bom dizer, também, que algumas vezes (duas ou três durante o livro inteiro) a narração de Watney é “interrompida” para contar algo que está prestes a acontecer, como se alguém estivesse observando de fora. É uma narração um pouco estranha porque ela chega do nada, então na primeira vez que aconteceu eu não sabia o que estava acontecendo.

Espaço 2: NASA

Vou ser bem honesta com vocês: durante as primeiras “aparições” dessa parte do livro que, com um narrador onipresente, contava a situação das pessoas aqui na Terra, eu só queria que acabasse e voltasse para as partes do Watney –e acho que o autor também, já que essas primeiras “entradas” eram bem rasas.

Mas, claro, que foi só uma questão de tempo para que as partes da NASA começassem a ter toda a importância do mundo e que eu começasse a me apegar aos personagens daqui também. O desespero é bem real, a descrição dos personagens é muito palpável, e até mesmo a descrição dos processos “democráticos” numa situação extrema como a de um astronauta vivo e sozinho em um planeta há alguns anos de distância parecem muito reais. Como se o autor tivesse vivido na NASA durante meses e aprendido todo o procedimento deles.

Por mais que seja bem mais fraca que a narração do diário de sóis, é uma parte muito necessária e que acaba te cativando gradativamente.

Espaço 3: Hermes

Talvez isso possa ser considerado um mild-spoiler, mas existe uma parte, a partir de certo ponto do livro, onde há uma narração, também onipresente, do que acontece a bordo da Hermes –nome GENIAL–, nave que se encarregou de “pegar” os astronautas que saíram vivos de Marte e levá-los de volta para casa.

Essa parte é muito leve e tensa em medidas certas e eu realmente esperei que acontecesse, já que, em diversas entradas do diário, Watney faz menção aos seus colegas de tripulação e por muitas vezes eu fiquei curiosa pra saber como eles são. Ter essas partes no livro me ajudou a torcer mais ainda por todo mundo, e a primeira vez que aconteceu foi bem mais bem-vinda que a da NASA, por exemplo.

Uma coisa que fica bem clara nos três tipos de narração –por assim dizer– é o tamanho da pesquisa que o autor fez para que, ao explicar isso em um livro, tudo ficasse o mais próximo do real possível e de uma forma que o leitor ficasse confortável de ler, e entendesse sem ter que quebrar muito a cabeça ou pensar “ah, se ele tá falando então é isso mesmo.

A Jornada

A coisa mais agoniante desse livro é quando você está na página 50 e acontece uma coisa muito boa e que vai ajudar o Watney bastante e aí você vê quantas páginas ainda faltam e pensa “meu deus, olha só o tanto de coisa que ainda pode dar errado!

Isso faz com que você crie espectativas junto com o pessoal da Hermes e junto com o pessoal da Terra; a visualização é tão forte que é quase como se você estivesse acompanhando tudo pela televisão, e estivesse realmente acontecendo. Fazia muito tempo que eu não lia um livro que me prendia a respiração e fazia meu coração disparar enquanto eu lia tudo que estava acontecendo. Eu me peguei diversas vezes tendo que respirar fundo depois de um capítulo.

É importante dizer, também: não se importe muito com os capítulos. A maioria deles, se não todos, é colocado apenas para dar aquele respiro mesmo, já que a história em si é contada de uma maneira fluida que não se interrompe facilmente –isso quer dizer que quando você sentar pra ler, é muito difícil você querer largar. É como ler um filme.

Uma lição sobre fé e empatia

Eu fiquei muito surpresa em diversas partes do livro, quando, mesmo em meio a vários termos engraçados, termos técnicos e “fiz merda” ou “estou ferrado”, Watney ainda acreditava em si mesmo em 99% do tempo. Ele sempre acreditou que conseguiria resolver seus problemas e chegar até o fim dessa aventura maluca com vida.

Em mais de um momento do livro ele brincava com “pelo menos eu vou ser o primeiro ser humano a fazer xixi em Marte” ou outra “primeira vez” que tivesse.

Isso me ajudou bastante a não só me importar com ele como perceber como é importante que a gente acredite que conseguiremos fazer qualquer coisa, desde as mais simples como sobreviver a um jantar de família até as mais difíceis como sobreviver em Marte.

“– Eu sei – concordou ele [Martinez] – Não estou falando de fé em Deus, estou falando de fé em Mark Watney. Veja todas as dificuldades que Marte causou, e ele ainda está vivo. Ele vai sobreviver. Não sei como, mas vai. Ele é um filho da mãe inteligente.”

Perdido em Marte também tocou num ponto muito importante que é a capacidade do ser humano de não abandonar ninguém, por instinto. Mesmo que seja em pensamento. Em todos os momentos do livro nós ficamos sabendo de vigílias feitas para Watney, programas de TV… as pessoas do mundo inteiro assistindo a lançamentos ou coletivas de imprensa querendo saber notícias do astronauta e torcendo para que ele não morresse –nos bons e nos maus momentos da trama.

“(…) todo ser humano tem um instinto básico de ajudar os outros. Talvez não pareça ser assim às vezes, mas é verdade. (…) Isso é tão fundamentalmente humano que é encontrado em todas as culturas, sem exceção. Sim, existem babacas que não se importam, mas são uma ínfima minoria. E, por causa disso, bilhões de pessoas ficaram do meu lado.”

No fim de tudo, mais do que a ciência (mas nem tanto, claro), os dois conceitos que movem a história do livro são esses dois: fé (não necessariamente em um deus) e empatia.

Terminei o livro, e agora?

Eu sei, amigo, foi bem difícil. Nos primeiros dias você não vai conseguir ler mais nada. Depois você vai pensar que quer ler o que aconteceu depois de tudo. E, por fim, você vai se lembrar que existirá (ou já existe, se você estiver lendo essa resenha no futuro) uma adaptação cinematográfica desse livro dirigido pelo Ridley Scott.

A narrativa de Andy, que usa três espaços diferentes para contar uma mesma história que mais parece um filme, fez com que eu aprendesse valiosas lições de química e de humanidade, fazendo com que essa tenha sido a minha melhor leitura de 2015 até agora, ouso dizer.

Agora é com você: quanto tempo em Marte você sobreviveria?

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12 Comments

  1. Maria Fernanda

    3 de agosto de 2015 at 21:57

    Eu não sei se eu duraria muito em Marte se me encontrasse na mesma situação, mas enfim… quero muito ler esse livro, em nenhuma resenha que eu li falava dessa mudança dos pontos de vista. E essas mudanças me pareceram interessantes o-o()

    1. dudssaldanha

      4 de agosto de 2015 at 19:03

      eu duraria um total de 0 horas porque ia morrer não de fome, mas de PÂNICO HSOAIHSOIHAOISHAO e SIM, as mudanças de perspectivas são muito muito legais <3

      1. Maria Fernanda

        6 de agosto de 2015 at 22:03

        Pois é, morrer de pânico é uma das possibilidades que eu teria que levar em conta xD
        Isso ou algo bem idiota tipo sair correndo desesperada e despencar numa ribanceira marciana (isso é muito a minha cara).

  2. Ana Rodarte

    3 de agosto de 2015 at 23:45

    Céus, eu nem sou a louca da ficção científica, mas fiquei com vontade de ler. Eu só fui pulando porque vi que havia alguns spoilers, hahaha! Mas eu realmente adorei "Interstellar" e a teoria dos "buracos de minhoca", então acho que vou gostar!
    Tamo junta no BEDA!

    1. dudssaldanha

      4 de agosto de 2015 at 19:03

      no trailer tem alguns spoilers mesmo HAHAHAHAHA mas o livro é tão amor que eu nem liguei, sabe? quando eu terminei eu pude ver que é muito mais do que o trailer pintou <3

  3. wanilag

    4 de agosto de 2015 at 13:12

    Primeiramente: eu não iria pra marte, hahaha. Mas eu nunca tinha ouvido falar do livro e agora quero muuuuuito ler! Parece ser realmente espetacular. Espero que o filme seja tão bom quanto. 🙂

    1. dudssaldanha

      4 de agosto de 2015 at 19:04

      OISHOAIHSIOHAOISHAOI ai, miga, é ridley scott. confia que é sucesso <3

  4. Chell

    4 de agosto de 2015 at 13:50

    CARACA, quem está morrendo de vontade de ler este livro??? o/
    Mais um que a dona Duds vai me fazer ler? uahuahua

    1. dudssaldanha

      4 de agosto de 2015 at 19:04

      OHAOISHAIOHSOIAHSIOAHSA EXATAMENTCHY. é minha missão na terra.

  5. Isa

    6 de agosto de 2015 at 14:45

    Gente, faz mó tempão que estou morrendo de vontade de ler esse livro e achei lindo você escrever "é como ler um filme". Eu amo quando o autor consegue fazer com que "lemos um filme", são poucos que consigo dizer isso e seu post inteiro só me fez ter vontade de pegar o livro AGORA! Socorro!!!

  6. lilifestyle

    12 de outubro de 2015 at 16:34

    MDS-EU-PRECISO-LER-ISSO Peguei ele nas mãos há um tempo e estou para comprá-lo: Agora não podia estar mais certa do ue uero!Hahah, parabéns pelo post, Duuuds ♥ Beijão ? http://enkontrocomk.blogspot.com

  7. Previously, no 2015 da Duds... | Pode Chamar de Duds

    4 de janeiro de 2016 at 15:43

    […] resenha nada parcial para o piloto de Supergirl, minha resenha super completinha e chuchu para Perdido em Marte, livro do Andy Weir (e meu favorito de 2015) e meu post apresentando uma das minhas boybands favoritas, a […]

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